O consumo de alimentos ultraprocessados no Brasil mais que dobrou desde os anos 80: saiu de 10% para 23% da dieta do país. O alerta vem de uma série de artigos publicados nesta terça-feira (18/11) por mais de 40 pesquisadores, liderados por cientistas da USP.
Para além do Brasil
A coletânea, divulgada na revista Lancet, mostra que o fenômeno não é exclusivo do Brasil. Entre 93 países analisados, praticamente todos registraram aumento, com exceção do Reino Unido, onde o índice permaneceu estável em 50%. Lá, só perde para os Estados Unidos, onde mais de 60% da alimentação é composta por ultraprocessados.
Em outros pontos do mundo, o avanço também chama atenção: o consumo triplicou na Espanha e na Coreia do Norte, e chegou a cerca de 32% na China, onde antes era de apenas 3,5%. Na Argentina, a alta foi menor, mas ainda relevante: de 19% para 29% em três décadas.
Segundo os pesquisadores, a aceleração ocorreu tanto em países ricos quanto em nações de baixa e média renda. Enquanto os países mais desenvolvidos já tinham consumo elevado, os de menor renda registraram saltos mais intensos. Esse padrão, afirmam, também se repete dentro dos próprios países: primeiro, o consumo aumenta entre pessoas de maior renda e depois se espalha para todo o restante da população.
Fatores culturais influenciam
Apesar disso, o estudo mostra que fatores culturais fazem diferença. Países com renda semelhante podem apresentar cenários bem distintos: o Canadá tem índice próximo de 40%, enquanto Itália e Grécia seguem abaixo de 25%.
O relatório lembra que a expansão desses produtos ganhou força após a Segunda Guerra Mundial e se tornou um fenômeno global a partir dos anos 80, impulsionada pela industrialização e pela globalização. No mesmo período, aumentaram os índices de obesidade e doenças como diabetes tipo 2, câncer colorretal e problemas inflamatórios intestinais.
O que são ultraprocessados?
A classificação Nova, criada por brasileiros em 2009, divide os alimentos em quatro grupos:
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In natura ou minimamente processados: frutas, legumes, carnes, peixes, grãos embalados.
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Ingredientes processados: óleo, açúcar, sal.
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Processados: combinações simples, como legumes enlatados, macarrão, sucos 100% fruta.
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Ultraprocessados: produtos com ingredientes baratos e aditivos químicos, como biscoitos recheados, refrigerantes, macarrão instantâneo e iogurtes saborizados.
Caminhos para reduzir o consumo
Os autores defendem medidas para frear o avanço desses produtos e responsabilizar grandes empresas pelo impacto na saúde global. Entre as principais recomendações estão:
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Rótulos mais claros, indicando aditivos como corantes e aromatizantes.
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Proibição de ultraprocessados em escolas e hospitais. Nesse ponto, o Brasil é citado como exemplo devido ao PNAE, que passa a exigir que 90% dos alimentos oferecidos nas escolas sejam frescos ou minimamente processados a partir do ano que vem.
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Regras mais rígidas para publicidade, principalmente para crianças.
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Sobretaxação de alguns ultraprocessados para financiar alimentos frescos destinados a famílias de baixa renda.
Por fim, os pesquisadores reforçam que o crescimento do consumo não deve ser tratado como responsabilidade individual. Para eles, trata-se de uma estratégia das grandes corporações, que usam ingredientes baratos, processos industriais intensos e marketing agressivo para aumentar vendas e moldar hábitos alimentares no mundo todo.
*Sob supervisão de Daniel Costa


















































































































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